me gustas cuando callas blogger, mi carino =)
madrugada. Quase 30 anos. Trabalho ao cubo. Futuro incerto. Foi assim que eu pensei que seria?
André... [2:05 AM]
A gente nasce pra que?
A gente nasce pra ser algo? alguém? Pra fazer as pessoas sorrirem? Pro outro? Pra si?
Pra que a gente nasce?
Existem grandes chances de nada lá do outro lado existir. A gente vai morrer e não vai mais existir aquilo que um dia foi pequeno e nasceu. O que vale a pena então se o final é conhecido?
Não aguento mais a maldição das madrugadas. Ela não me deixa dormir e me faz procrastinar nas coisas que eu tenho que fazer. Mesmo que eu no fundo saiba que eu não tenho que fazer. Porque a gente só devia ter que fazer aquilo que é necessário. E o que é esse necessário, pra seres que fatalmente retornarão ao pó? Eu não sei.
Sei que meu sobrenome é saudade ao cubo. E que eu sinto falta da liberdade, das pessoas, do céu azul e das músicas e pessoas todas que eu já amei.
André... [3:01 AM]
saudades de quando a vida se resumia a tentar entender porque o sol aparecia só de um lado... e quando ele batia na água parecia que ele vinha de todos os lugares, mesmo que olhando pra cima só houvesse nuvens escuras, prenúncio de um daqueles temporais que podiam afundar quantos barcos quisessem...
André... [10:20 PM]
Às 5 da manhã, depois de 2 capuccinos, The godfather acompanhado quase que com o canto de um olho apenas e música de bandas que eu esquecia o quanto me arrepiavam (não me envergonho nem um pouco de dizer que a música que tem uma adaptação pra "new world symphony" de Dvorak, feita pelos hollywood posers do Rhapsody se encaixa nessa definição), eu finalmente resolvi que tinha o que escrever além das monótonas revisões de ciência a que me submeto, mesmo em agradáveis noites de sábado, sempre tão bem-quistas, luxuriosas e regadas de vinhos e amores. A modalidade escolhida é ficção. Daquelas que se inspiram na vida de tanta gente que nem sei explicar.
Sobre voltar pra casa
Esta madrugada termino um texto que comecei a escrever em uma cadeira de balanço. Na varanda que mais amo, com a pessoa que mais me inspirou em tantos anos de vida terrena e não-terrena. Na ocasião eu pensava seriamente na hipótese de voltar.
Voltar não seria fraqueza? (analisemos pois, sob a ótica da vida moderna, a hipótese de voltar a casa de seus pais):
Os meus sempre foram afeitos a festas suntuosas, aos arroubos de um drama, à casa em que construíram com tanto suor, às lembranças de 2 gerações que lá vem crescendo e tendo muito sucesso nas coisas todas que formam a vida. Talvez voltar seja o desejo irreparável de não deixar romper uma relação que, como todos os relacionamentos entre humanos, possui seus altos, seus baixos, seus médios. Mas que na menor hipótese de ter sua chama apagada traz um tipo edaz de dor-de-alma.
Quando você sai de casa para enfrentar o mundo, usualmente se tem em mente que por mais dificuldades que você encontre lá fora, sempre existirá um porto seguro, um lugar mágico que a gente imagina que será sempre o lugar onde se pode ter um refúgio. Se tudo der errado, você lá estará. Sentado, envergonhado, com a cabeça baixa, o orgulho ferido. Mas vai voltar, porque é lá que estão as pessoas destinadas a você. Elas receberão seu sorriso mais amarelo com olhares de julgamento. Mas você precisa do teto, o dinheiro acabou e levou junto os sonhos que eram tão bem construídos pela sua mente libertária.
Meu dinheiro não acabou, muito menos minha capacidade de sonhar. Mas meu casamento não deu certo, a cidade em que moro é fria demais, os amigos rareiam e eu estou cansado de socar a ponta da faca. Mentira. Só me dói na consciência estar tão longe quando meu pai não mais puder se levantar da sua cadeira de balanço de macarrão. Por isso considero a hipótese de pelo menos estar a alguns minutos de carro desse momento. Esta é talvez a maior motivação do voltar. Não ser surpreendido pela sensação de impotência máscula que é a morte dos que amamos. Mais uma das vãs ilusões que permeiam nossa existência.
Mas o fato é que não há nada mais seu do que sua família. Papai, mamãe, titia (não, irmãos, os tios ficam em segundo plano). Podemos não ter tanto em comum, mas nascemos com uma especificidade das mais duradouras: viemos à Terra sob o mesmo seio, o mesmo lar. Na verdade formamos um lar e o fato de termos sido escolhidos para tal provavelmente tem um porquê, embora em tantos momentos nos peguemos duvidando dos desígnios da natureza.
Quando eu deixei a minha família pra trás, formei uma nova, mesmo que sozinho. Deixar pra trás os seus é algo muito forte, não? Na verdade deixei pra trás uma cama, refeições sob a mesma mesa, uma vida fácil. Também deixei as raivas intrometidas de minha mãe, as rabugices de meu pai, os gritos de minha irmã, as empregadas e cozinheiras, cachorros, gatos e papagaios. Apenas um papagaio na verdade, mas que valia por vários, especialmente nos dias em que você simplesmente quer a paz de dormir até o meio-dia.
Quando recebia meus amigos aos sábados, eu tinha cachorro quente pra oferecer a eles. Quando precisava de inspiração, tinha um terraço enorme pra ver a cidade inteira. Eu tinha até um estúdio onde eu podia levar três garotas juntas a me beijar como se beija a ilusão de uma noite de amores. Lembro de quando eu tirava a blusa e mostrava minhas tatuagens. Elas diziam: Nossa, a gente pode tocar? Tinha tantos instrumentos e equipamentos que não ligava delas fazerem barulho tão tarde da noite. Nem ninguém ouvia em casa. Ou fingia que não ouvia. Antes um filho exótico que um filho perdedor. Os pais odeiam que a gente perca.
Pra chegar ao estúdio eu tinha que passar por um quintal, onde ficavam nossos cachorros. Lembro de um em especial, que mordia as visitas. Sempre tinha que ir à frente para segura-lo, ou mesmo prendê-lo sob protestos irracionais do próprio. Afinal, que raio de pessoa dona-de-uma-casa não tem o mínimo de poder moralizador frente aos seus animais? Mande! Eles obedecem e você realmente pode dizer que aquilo tudo é sua propriedade.
Bem, quando passo uns dias com eles, na casa que ainda teimo em chamar de minha, embora esta seja uma afirmativa dúbia e contraditória, sinto que faço parte de algo que não compreendo. Entretanto, tantos anos fora me fazem perceber que isso também é contraditório. Por mais que eu me esforce percebo que não tenho mais meu copo favorito, que meu antigo quarto agora abriga um escritório, que meu terraço agora só se apinha de roupas, que meu estúdio é reduto de ratos e madeira sem uso. Eu percebo que no fundo sou um estranho. Um bem-vindo estranho, mas ainda assim um estranho que tenta a todo custo não parecer um.
Se passo uma semana, no sexto dia voltei a sentir os aromas, a escutar com um sorriso os vizinhos novos que cantam de madrugada, a gostar do papagaio que imita um galo as 6 da manhã todos os dias, a lembrar do rosto do padre que celebra a missa que minha mãe vai religiosamente aos domingos, a reclamar do barulho da igreja evangélica que se instalou nos fundos “há tão pouco tempo que parece uma eternidade já” (e lá se vão 10 anos que ela lá está).
No momento que já ando pela casa descalço, que desço à garagem para procurar objetos da minha infância, que ajudo a varrer as folhas velhas que insistem em cair na garagem, a única coisa que me lembra minha condição de estranho, de vivente refugiado da vida real - aquela em que acordo todo dia as 6 para pegar o ônibus cheio de gente de cara amarrada – é o latido esganiçado dos cachorros.
Sim, na casa de meus pais existem uns 10 cachorros. De todos os tamanhos, cores e raças, eles estão lá para entreter e proteger, desde sempre, desde que minha irmã encasquetou na idéia de ter um canil e ganhar muito dinheiro com isso. Idéia que foi devidamente abandonada ao se notar que os cachorros não sabiam limpar suas próprias moradias. Os cachorros não me deixam chegar de madrugada, pois sou como o ladrão que se esgueira pelo portão, com cheiro de álcool, a sutileza de um elefante e a vergonha estampada na face. Não se chega as 5 da manhã quando se mora com seus pais, eu penso. Eles não ligam tanto assim, apesar da preocupação ser a mesma desde a primeira vez que saí à noite. Seus pais ainda ficam acordados te esperando, mesmo que você tenha 30 anos? Não é privilégio seu =)
Os cachorros também fazem dos meus dias um inferno. Eles me olham ameaçadoramente, eles me perseguem em todos os cômodos da casa, eles latem pra mim e os menores mordem meus calcanhares. Quando desço pra estender a roupa eles me acompanham só para aproveitar um momento de distração meu e pisar em uma camisa branca, rasgar uma bermuda qualquer. Na hora em que resolvo comer aqueles velhos cachorros-quentes dos sábados à tarde, eles lá estão com um olhar pidão. Não deixam de salivar e se revezam na tarefa de me azucrinar. Da última vez um deles fez suas necessidades fisiológicas no “case” de um dos meus equipamentos mais caros. O mesmo que outrora as minhas companhias noturnas pediam pra que eu abrisse e tirasse o som mais maravilhoso que elas poderiam ser capazes de ouvir naquele momento pré-sexual. Aquelas noites em que eu me sentia o homem mais sortudo da humanidade.
Eu já entendi. Eles lá estão pra me mostrar que não posso mais voltar. Fiz minhas escolhas e elas fatalmente não incluíam morar na casa de meus pais por todo o sempre. Sinto uma saudade absurda de tudo de bom que aquela casa e aqueles pais me deram e ainda me dão, mesmo de longe. Tenho vontade de dizer o quanto os amo e o quanto as paredes da casa guardam muito mais sorrisos que mágoas. Se um dia eu puder, quero mostrar cada um dos cômodos para os meus filhos e contar a história por trás de cada um deles e todas as lembranças de uma vida plena. Como do dia em que meu irmão me prendeu no topo da geladeira ou como no dia em que fiz minha irmã ir me buscar na rua de camisola. Talvez esta seja a declaração de amor maior que a gente pode dar a nossa família de origem. Mostrar a ela que um dia, a família vira outra, mas os porquês são sempre os mesmos.
E se um dia a angústia-mor da morte se abater sob aquela casa, que eu possa estar perto na hora em que tiver que estar. Calarei os cachorros todos. Levarei minhas rezas. Serei um herói. Daqueles que salva o dia quando tudo parece não ter fim. Já enfrentei a morte e sei que o seu ardil mais efetivo é entrar na mente das pessoas como a preguiça o faz em tardes de domingo. Hei de chegar a tempo de dizer o quanto eles precisam se cuidar melhor e o quanto senti falta de todo o carinho do meu lar original. De agradecer pelos valores, pelos sabores, pelas idéias e pelo teto. E, talvez, com o coração apertado, vou pedir pra levar uns cachorros pra minha casa. Já que os cachorros são os seres que podem melhor explicar a relação e o sentido de se pertencer a um lugar. Eles sentem e sabem o que há por trás. De minha parte, só sei que a vida podia se resumir ao dia em que eu comia abil, os cachorros da minha época latiam ao fundo e eu escutava meus pais falarem sobre o tempo.
*O dia amanhece e a trilha sonora é “To France” com Mike oldfield e Maggie Reilly. Parece adequada a mais uma manhã de domingo. Aquela em que eu pensei seriamente em nunca mais deixar de ser filho.
André... [6:49 AM]
Prólogo:
Um dia você vai aprender a lidar com a frustração.
Um dia você vai ver que não adianta espernear, as coisas seguem o seu curso. E você também vai perceber que quanto mais você luta, mais coisas boas acontecem. Mesmo que você continue dando mais atenção ás coisas ruins.
E um dia você vai ver que o tempo passou e você nem viu... Você não fez nem um décimo das coisas todas que tinha vontade. Você visitou menos da metade dos lugares que queria. Beijou muito menos bocas que queria ter beijado. Você acha que fracassou e segundo as expectativas todas da sociedade, talvez realmente tenha fracassado.
E é hora de despedir-se, talvez. As coisas todas tem um início, um meio e o fim.
Talvez possamos mudar os três. Especialmente o porvir.
E por mais que lutemos, existem momentos que algo te leva embora, que a solidão te corrói a alma e que nada do que você pensa/faz/imagina tem utilidade, é real ou te faz feliz.
E nessas horas a única saída é se refugiar em seu mundo. Nele existe música, existem palavras e não existe bom senso que argumente com a dor.
André... [6:50 PM]
Reverso
Quando nasce, nasce em revés
Molha,dá vida
Assusta e acalma
Como as ondas que estancam
E as rochas que falecem
Quando chega vem em bando
Alardeia, contrai
Dói e esfria
Como pétalas e como rosas
E janauirs e abelhas
E se cai em si se perde
Um dia que seja
Torna triste sua graça
Como o que é súbito
E como aquilo que combina
Quando não soa sorri
Quando não seca dá frutos
E assim continua
Até que acaba
Por onde começa
Como no dia que o conheci
E como no dia em que nasci
Pelo tempo que é abstrato
Poderia ser sentimento
Caso fosse notado
Como dias cinzentos no inverno
E como horas passadas na grama
E se fosse eterno
Eu lia, relia e iria
De mala pro cais
Comer latas de porcaria
Como moço de fino trato
Que nota motivos estranhos
Em notas erradas
A serem tocadas
Como nos dias de vinho chileno
Reveste teu reverso
Pois cá ele se encontra
A desprover de razão a existência
De bem quista e sã decadência
brindando karmas e luz do luar
e eu a repetir: Vem cá...
André... [4:32 PM]
Você sabe o que é cumplicidade?
Eu só consigo viver com alguém se assim for. Faça você também o mesmo e irá ver que a vida há de se tornar mar com vento e madrugada...
André... [8:06 PM]